“Nós não escrevemos para adormecer os da casa-grande”

Por Juliana Borges

Ao afirmar que o ato de sua escrita, e da escrita de mulheres negras, rompe com a expectativa da branquitude pela passividade, Conceição Evaristo posiciona seu fazer literário. Participe da campanha pedindo para que a autora faça parte da Academia Brasileira de Letras, assinando a petição aqui.

Língua e Linguagem não são neutras, são também espaços de disputa dado o poder que tem na ao produzir e reproduzir sentidos. Ou seja, Língua é poder, posto que uma instituição que é constituída – e, também, constitui, se pensarmos nos países que passaram pela experiência colonial e que viveram imposições linguísticas e literárias – e espelha uma sociedade e, portanto, ideologias, um emaranhado de disputas e conflitos e, também, violências sociais. Neste sentido, Língua e a instituição de padrões de linguagem podem, e são, ferramentas utilizadas há muito para apagar outras expressões de língua e linguagem, culturas e servir a hierarquização de saberes, classes sociais e povos.

A Literatura, portanto, tem papel importantíssimo, se não central, nesta construção de imaginário marcado por estereótipos e reprodução de determinações de lugares para diversos grupos sociais. Em artigo sobre a representação e auto-apresentação da mulher negra na literatura brasileira, Conceição Evaristo nos apresenta um panorama de sujeição da figura da mulher negra na sociedade brasileira:

“a literatura brasileira, desde a sua formação até a contemporaneidade, apresenta um discurso que insiste em proclamar, em instituir uma diferença negativa para a mulher negra. A representação literária da mulher negra ainda surge ancorada nas imagens de seu passado escravo, de corpo-procriação e/ou corpo-objeto de prazer do macho senhor. Interessante observar que determinados estereótipos de negros/as, veiculados no discurso literário brasileiro, são encontrados desde o período da literatura colonial.”

Contudo, ao constatar esta construção imagética da mulher negra através da Literatura, Conceição Evaristo também evoca as resistências estabelecidas por todas nós. Em contraponto a negatividade e planificação de representação das personagens, as mulheres negras tem sido, historicamente, as principais responsáveis pela sobrevivência e pela memória cultural-epistêmica do grupo. São a maioria dentre as mulheres chefes de família, garantidoras da subsistência, ecos de memória negra em plena atividade e resistência cotidiana. E é desta resistência que há, portanto, também uma produção e “auto-apresentação” no campo literário realizado por mulheres negras e que, cada vez mais, tem se potencializado e espraiado. É desta constatação que a autora posiciona sua escrita.

Em “A gente combinamos de não morrer”, do livro “Olhos d’Água”, Conceição Evaristo evidencia em poética que o ato de escrever para as mulheres negras é uma emergência e também uma experiência que finca marcas físicas e simbólicas ao afirmar que “escrever é uma maneira de sangrar”. Um “sangramento” em formulação que se contrapõe a estereótipos, que se faz esforço e força em oposto a uma maré aprisionadora. Contudo, um sangrar não apenas negativo, mas também positivo pela resistência, ressignificação em existência e positivação de suas próprias imagens, um posicionamento no mundo e, portanto, reconhecimento desta seara importante de disputa de projeto de sociedade. Ao relembrarmos da afirmativa de Angela Davis, de que, ao movimentar-se, mulheres negras movimentam toda a estrutura da sociedade com elas, fica evidente que a “auto-apresentação” se coloca também como construção narrativa processual, interseccional e, portanto, como elemento de epistemologias e vislumbramento de outra sociedade.

Ao apresentar o conceito de “escrevivência”, a autora explicita bem esta centralidade do pensamento de mulheres negras: “essa escrevivência toma como mote de criação justamente a vivência – ou a do ponto de vista pessoal ou a do ponto de vista coletivo”. Ou seja, a escrevivência é esta reflexão a partir de vivências constituidoras de uma experiência de grupo social, de identidades coletivas potencializadoras de umas das outras, constituidoras de formulações e saberes e salvaguardas de ancestralidade que apontam perspectivas futuras. Com isso, o ato escrever é movimento, inscrição de perspectivas e existências no mundo, um rompimento com a passividade de leitura, de recebimento de informação, para o papel de produtoras, formuladoras do conhecimento a ser apresentado. A escrita é, portanto, para as mulheres negras um ato revolucionário, insubordinado e que se evidencia desde os temas abordados por estas escritas, até os métodos e formas que rompem com o esperado e imposto nas normas literárias, e sociais, sendo o encontro entre forma e conteúdo como posicionamentos políticos.

Conceição Evaristo, portanto, não localiza apenas seu fazer literário ao estabelecer centralidade para as personagens femininas e periféricas negras, mas todo um conjunto de vivências, produzindo experiências, identidades e um saber político coletivo. Se lembrarmos que 52% da população brasileira é negra e que negros compõe ¾ da população mais pobre, e sendo cerca de 80% da “nova classe trabalhadora”, ao posicionarmos personagens negras, faveladas, periféricas no centro de narrativas literárias, representando-as e auto-apresentando-as de modo complexo, podemos concluir que a escrita e fazer literário de Conceição Evaristo está marcando um conjunto central da constituição da sociedade brasileira. Neste sentido, nominar esta produção literária como “marginal” – não como um movimento estético-literário, mas de modo a minorar esta produção – é equivocado e uma ausência de compreensão de importância e relevância à Literatura Brasileira.

Com o falecimento de Nelson Pereira dos Santos, abre-se uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. A jornalista Flávia Oliveira fez uma provocação, fruto de reflexão e observação importantíssimas, de que estaria na hora de estabelecer campanhas para a indicação de nomes negros de grande relevância, produção e contribuição literárias. A ABL foi fundada por Machado de Assis em 20 de Julho de 1897, com sede na cidade do Rio de Janeiro. O intuito machadiano era o de criar um espaço de cuidado e tratamento, preservação e incorporação, de traços e questões relativas à língua e literatura no país. São 40 membros e 20 sócios estrangeiros. Para ser um membro efetivo da Academia, é preciso a publicação de obras reconhecidas, em qualquer gênero literário, por valor, importância e relevância, bem como de qualidade na literatura.

A contribuição de Conceição Evaristo para a Literatura Brasileira é inestimável como a de muitos outros imortais, e os que também permaneceram mortais em reconhecimento pelo nosso espaço de cuidado e tratamento literário. A escrita da autora, da poeta, contista e romancista, estabelece o encontro de seu tema com o formato em que o apresenta. Ou seja, Conceição Evaristo consegue transpor em linguagem e literatura toda a riqueza, contradições, complexidades e meandros das temáticas que aborda. Suas personagens têm a diversidade e pulsamento que expressam a multiplicidade nacional. A estrutura narrativa de Conceição Evaristo dialoga e representa o tempo todo as experiências destas personagens, apresentando a perspectiva em ficção, mas com elementos das vivências reais que apresentam mais do que sujeitos de ausências ou objetos de estudo em becos, favelas, olhos em transbordamento, recordações e corporificação de memórias. Ou seja, são mais do que personagens faveladas, domésticas, trabalhadoras, são personagens profundas, reflexivas, que apresentam tensões e rompem com a planificação e estereótipos ou lugares pré-determinados. Conceição Evaristo reposiciona humanidade ao complexificar estas narrativas em personagens de ficção e, mais do que isso, expõe um Brasil ao Brasil de modo cativante, em palavras e narrativa que articula, como poucos conseguem, simplicidade e refinamento literário. O mundo das palavras que cercaram a autora fica evidente ao pulular do universo literário evaristiano. Se a Literatura é o espaço em que não há o impossível, recriar este ambiente em narrativa ficcional, bebendo de fontes reais, amplia a visão e compreensão do que somos como sociedade, ou seja, nos enriquece literariamente.

Como a própria autora provoca, a escrita de mulheres negras borra imagens e formatos preestabelecidos, desloca estratificações, impulsiona indeterminações, evoca conflitos e sentidos, colocando a indagação, diálogo e dinamismo tão importantes ao fazer literário. Ao escrever para “acordar a casa-grande de seus sonos injustos”, Conceição Evaristo articula o estético e o político tão presentes e marcados nas grandes obras de nossa Literatura nacional.

A Literatura é das poucas manifestações que conseguem, como nos apontava Antonio Candido, recriar e impulsionar deslocamentos de sentido e reflexão, de transformar em poético e belo o que seria, se apresentado cruamente, dilemas e conflitos sociais, nos apresenta a violência de modo muito mais intenso e impactante do que um mero trecho em um jornal. Porque a literatura penetra a mais profunda e distintiva capacidade que nos humaniza: o pensamento. Sua escrevivência é de beleza repleta de provocações, não apenas estéticas e/ou vazias. Mas a beleza de tocar no sublime e de suspensão diante do que absorve, fazendo da leitura uma experiência que tira os indivíduos de si. A Literatura tem potência de formação e transformação. E é possível enxergar todos estes elementos, em tratamento e qualidade, na obra de Conceição Evaristo.

Se cabe a Academia Brasileira de Letras, como assim sonhou Machado de Assis, cuidar, tratar, preservar e apontar os caminhos de nossa língua e literatura, Conceição Evaristo é contribuição-parte da riqueza e multiplicidade que distinguem nossos traços e construção do que adotamos como “português brasileiro”. E não a toa.

A ponta de sua caneta e o texto em dígito de Conceição Evaristo trazem um trajeto de ancestralidade e apontam vislumbres de horizonte. Ora, não é isso que faz um imortal?

Juliana Borges é pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. É colunista dos sites Justificando, Revista Fórum e Blog da Boitempo. Estudou Letras na Universidade de São Paulo e é autora do livro “O que é encarceramento em massa?” da série Feminismos Plurais, do selo Justificando do Grupo Editorial Letramento.

 

Biografia de Conceição Evaristo

Conceição Evaristo nasceu em 29 de dezembro de 1946 numa favela da zona sul de Belo Horizonte, Minas Gerais. Filha de uma lavadeira que, assim como Carolina Maria de Jesus, matinha um diário onde anotava as dificuldades de um cotidiano sofrido, Conceição cresceu rodeada por palavras. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos.

Uma das principais expoentes da literatura Brasileira e Afro-brasileira atualmente, Conceição Evaristo tornou-se também uma escritora negra de projeção internacional, com livros traduzidos em outros idiomas. Publicou seu primeiro poema em 1990, no décimo terceiro volume dos Cadernos Negros, editado pelo grupo Quilombhoje, de São Paulo. Desde então, publicou diversos poemas e contos nos Cadernos, além de uma coletânea de poemas e dois romances.

A poeta traz em sua literatura profundas reflexões acerca das questões de raça e de gênero, com o objetivo claro de revelar a desigualdade velada em nossa sociedade, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e sua potencialidade de ação. É Uma mulher que tem cuidado de abrir espaços para outras mulheres negras se apresentarem no mundo da literatura. (Texto de Fundação Palmares)

 

Produção literária

Ponciá Vivência (2003)

Becos da Memória (2006)

Poemas da Recordação e outros movimentos (2008)

Insubmissas lágrimas de mulheres (2011)

Olhos d’Água (2014 – Prêmio Jabuti 2015)

Histórias de leves enganos e Parecenças (2016)

(Fonte: Ocupação Conceição Evaristo, Itaú Cultural)

 

Participe da campanha pedindo para que Conceição Evaristo faça parte da Academia Brasileira de Letras, assinando a petição aqui.