Cenários para 2018: Nós, os 99%, contra os privilégios do 1%

O ‘Nexo’ convidou movimentos novos de diferentes orientações políticas para que projetassem cenários para 2018. Neste ensaio, o Nós se apresenta e conta seus planos para o ano eleitoral

Por:
Ana Júlia Ribeiro, Sheila de Carvalho, Marcelo Rocha e Conrado Carrasco 30 Jan 2018

Enquanto você lê este texto, um punhado de bilionários aumenta sua fortuna simplesmente especulando no mercado financeiro e sustentando seus negócios com a exploração de uma multidão de brasileiras e brasileiros que arregaçam as mangas todos os dias pra pagar suas contas. E o que isso tem a ver com as eleições de 2018? Tudo!

Por incrível que pareça, cada um de nós paga proporcionalmente muito mais impostos do que os caras que estão lá no topo. Mas não recebemos em troca (nem perto!) os mesmos benefícios que eles: isenções fiscais, perdões de dívidas e todo um arsenal de leis que favorecem seus negócios, seu patrimônio, suas propriedades, seus privilégios.

Alguém já se ofereceu para pagar seu boleto atrasado ou sua dívida do cartão? É porque você não é rico o suficiente. Se fosse, não só receberia esse tipo de “agrado”, como se sentiria à vontade para exigir. Essa relação promíscua entre classe política e setor econômico tinha que acabar, mas só cresceu desde que um governo ilegítimo assumiu o poder na base do tapetão, com o auxílio de outras duas oligarquias (mídia e Judiciário).

A consequência dessa privatização da política pelos poderosos é sofrimento para quem não tem poder. Ela se traduz no dia a dia em falta de oportunidades, de emprego, de ensino e saúde pública de qualidade; na precarização do trabalho, na retirada de direitos, no caos urbano, na degradação do meio ambiente, na escalada da violência, no genocídio da juventude preta e pobre, nas mais variadas formas de preconceito e exclusão que persistem – inclusive de forma estrutural, como o racismo e o machismo -, e, claro, em um sistema político que não representa a sociedade nem corresponde ao que ela realmente é e deseja.

Foi por isso que Nós nos juntamos e estamos chamando quem mais quiser fortalecer este movimento para virar a política do avesso e colocá-la a serviço dos 99% da população, contra os privilégios deste 1% que tem tudo nas mãos, que enriquece e se mantém no poder às custas da desigualdade.

Neste turbilhão que o país vive, principalmente depois do golpe de abril de 2016, talvez seja ainda mais difícil identificar quem realmente está interessado e disposto a virar esse jogo e enfrentar esses privilégios de forma séria e concreta. Afinal, não faltam oportunistas para navegar na onda da “renovação política” ou de um ativismo judicial moralizante e seletivo, que oferece soluções simples para problemas complexos.

Não somos oportunistas. Sabemos que nossos problemas são imensos e não se encerram com as eleições de 2018, um processo que começa viciado pela ruptura democrática e a consequente instabilidade institucional. Também não somos ingênuos. Sabemos que o lado de lá vai tentar usar as urnas para validar o sequestro oligárquico do poder e assassinar qualquer tentativa de construção de um processo político popular e inclusivo.

No plano eleitoral, nosso desafio é fortalecer e apresentar candidaturas verdadeiramente comprometidas e preparadas para este enfrentamento. Por isso, ao longo dos últimos meses, Nós juntamos lideranças populares, estudantes, ativistas, professoras e professores, trabalhadoras e trabalhadores de diversas áreas para construir coletivamente um conjunto de princípios, além de uma rede de colaboração e difusão de ideias, programas e ações, que conectem as candidaturas do campo progressista e as aproximem das pessoas.

Não adianta discutir quem vai estar na Presidência da República sem repensar as formas de se fazer campanha e trabalhar nas bases, sem aprimorar os meios de se chegar ao Legislativo para torná-lo mais qualificado, mais representativo.

Enquanto o parlamento continua sendo tomado e sugado (in)justamente por quem faz parte ou está a serviço do 1% (uma maioria de homens, brancos, latifundiários, empresários, cartolas, coronéis da bala e da fé, fantoches do rentismo), o país não vai superar suas mazelas. E não há renovação política possível se não for financeira e politicamente independente das velhas forças a serviço do poder econômico, responsável por gerar essa mesma desigualdade que estamos dispostos a enfrentar.

As Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional precisam ser ocupados pelas vozes das ruas, fazendo política com transparência e participação, respeitando a diversidade de ideias que é própria de quem está do nosso lado da história, mas acreditando que é possível se aliar contra os retrocessos que a casta do 1% nos impõe.

Queremos inspirar as pessoas a enxergar e reconhecer na política o caminho para uma vida melhor. Queremos que mulheres, negras e negros, indígenas e quilombolas, LGBTs e diversos outros setores historicamente excluídos do poder ocupem os espaços de decisão e os reorientem para quem precisa, garantindo acesso aos que nunca puderam usufruir das riquezas produzidas no Brasil.

Estamos cientes das barreiras à nossa frente. Mas derrubá-las é a única alternativa. Afinal, do solo árido da desigualdade, não tem como brotar democracia. Se você também quer virar esse jogo, #ColaComNÓS!

Ana Júlia Ribeiro, Sheila de Carvalho, Marcelo Rocha e Conrado Carrasco são membros do Nós, movimento fundado em 2017 que propõe uma renovação do campo progressista, com novas práticas políticas associadas a um programa que defende as liberdades individuais, os direitos civis e o combate absoluto às desigualdades sociais.

Originalmente publicado em:
https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/Cen%C3%A1rios-para-2018-N%C3%B3s-os-99-contra-os-privil%C3%A9gios-do-1